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Família 09/09/2010   
 

Fundação Kellogg
Iniciativa para o Desenvolvimento de Jovens na América Latina e Caribe. Seminário "Jovens e Família" DOCUMENTO-BASE

Como se fala da família

Pela forte identificação da família com aquilo que somos, o discurso sobre a família tende a ser projetivo e defensivo, como foi comentado no início do texto. Disto resulta o que Antonio Carlos Gomes da Costa chamou de desmobilização política da área da família, como se esta fosse uma redoma, fora do alcance dos conflitos sociais e das questões de cidadania. Assim, diante de momentos de ruptura social, apela-se para os "valores familiares" contra medidas que visam beneficiar os setores oprimidos da sociedade, como foi o caso da Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade, contra as Reformas de Base no começo dos anos 60 no Brasil.

Produz-se um discurso totalizante sobre a sociedade que ordena as relações sociais a partir da família, tomando-a como referência simbólica, o que implica fazer prevalecer os códigos pessoais sobre os direitos universais da cidadania, estabelecendo critérios personalistas de julgamento em detrimento de critérios morais que possam ser universalmente aplicados e discutidos. Valorizar a família comporta, assim, conotações muito distintas. Basta lembrar, em contraposição à conservadora Marcha de 1964 no Brasil, a ação política em favor da justiça social, na luta de familiares das vítimas das ditaduras militares na América Latina, da qual é emblemática a luta das Mães da Praça de Maio, na Argentina.

No que se refere aos discursos sobre as famílias pobres, aquelas consideradas vulneráveis, sobre quem incidem as "intervenções", há duas vertentes que fundamentam estas intervenções: a primeira pode ser chamada de visão instrumental da família, que a reduz a um grupo articulador de "estratégias de sobrevivência", pensando-a como unidade de consumo e geração de renda. Esta vertente desconsidera que, mesmo quando se vive em condições materiais muito precárias, não se é movido apenas por exigências de sobrevivência, mas por um desejo, que é de todos os homens e mulheres, de compreender e dar sentido ao mundo em que se vive. Qualquer comunidade humana contem em si dimensão simbólica.

Uma segunda vertente argumenta em favor da intervenção em famílias, a partir de uma concepção da família como fonte de problemas sociais. A necessidade de "intervir" justifica-se diante de famílias consideradas "desestruturadas", "incapazes de dar continência" a seus membros. Pode ser chamada de visão culpabilizante da família. Sobre ela recai toda a responsabilidade pelas dificuldades que enfrenta. Neste discurso, além de se ignorar os determinantes sociais, exteriores à família, nega-se a possibilidade de que a família tenha recursos próprios e potencialidade para mudar suas condições, fazendo também tábula rasa de toda sua experiência cultural.

Fala-se, ainda, da família, a partir de seus modelos empíricos mais freqüentes; a partir das díades que compõem suas relações: marido/mulher, pais/filhos, mãe/filhos; pai/filhos, irmão/irmão, provedor/dona-de-casa, etc... Dado o reconhecimento, hoje generalizado, de que não existe um único modelo de família e que essas díades que compõem a família não necessariamente se organizam no modelo nuclear (de pai/mãe e filhos, reunidos numa única unidade doméstica), há uma tendência a se falar em "famílias", pela sua diversidade de modelos empíricos. Além das famílias nucleares, que continuam sendo maioria, há famílias monoparentais, que cada vez aumentam mais, famílias extensas, que persistem, etc..

Reconhecer a diversidade é fundamental no sentido de não normatizar as ações a partir de um modelo rígido e único, artificialmente imposto. No entanto, pensar a família a partir de sua diversidade, ou seja, a partir de seus modelos empíricos, limita a perspectiva de ação e a própria compreensão, uma vez que não se esclarece a respeito do que se trata, dificultando priorizar ações.

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De que família se fala
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Como falar de outro jeito?

Índice:
- Apresentação
- O que se quer dizer com "família"
- Porquê jovens e família
- De que família se fala
- Como se fala da família
- Como falar de outro jeito?

Fonte: Instituto de Terapia de Família e Casal de Campinas.
Visite o website: www.familia.med.br.

 
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