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Família 09/09/2010   
 

Fundação Kellogg
Iniciativa para o Desenvolvimento de Jovens na América Latina e Caribe. Seminário "Jovens e Família" DOCUMENTO-BASE

Família: abertura ao outro
 por Cynthia A. Sarti

O que se quer dizer com "família"

Quando se fala em família, a associação imediata é com a idéia de algo entranhável, a que se está enlaçado, do que se é inseparável. Embaralham-se as imagens e confunde-se facilmente família com a "nossa" família, tão forte é a identificação da família com o que somos. Na família, criam-se, ou recriam-se através das gerações, os elementos que definem o "nós". A família é, assim, alicerce de identidade. Quando se lida com famílias, portanto, depara-se com uma primeira dificuldade, a de estranhar-se em relação a si mesmo. Como reação defensiva, há uma tendência a projetar a família com a qual nos identificamos - como idealização ou como realidade vivida - com o que é ou deve ser "a" família, o que impede de olhar e ver o que se passa a partir de outros pontos de vista.

Em matéria de família, tende-se a ser ainda mais "etnocêntrico" do que o que habitualmente se é em outros assuntos: olha-se para o outro a partir das próprias referências, espelhando a realidade exterior naquilo que é "familiar", sem enxergá-la em sua maneira de explicar a si mesma. Traduz-se o estranho em termos "familiares".

Além disso, como se trata de um fenômeno universal, há a tendência a "naturalizar" as relações familiares que, por terem base biológica (o nascimento, o acasalamento, o crescimento, o envelhecimento), perdem seu caráter de relações sociais, isto é, determinadas pela sociedade e pelo tempo em que acontecem. Transformam-se - ainda como reação defensiva ao estranho - num "modelo" a ser seguido. Todo o resto, torna-se "desvio".

É fundamentalmente como lugar de aquisição de linguagem que a família define seu caráter social. A família é o lugar onde se ouvem as primeiras falas com as quais se constrói a imagem do mundo exterior. É onde se aprende a falar, e através da linguagem, a ordenar e dar sentido às experiências vividas. A família, seja como for vivida e organizada, é o filtro através do qual se começa a ver e a significar o mundo. Este processo que se inicia ao nascer prolonga-se ao longo de toda a vida, a partir dos diferentes lugares que se ocupa na família.

A família, mesmo para os adultos, continua tendo esta função estruturante das relações entre os indivíduos e de elaboração das experiências vividas. Crescer na família não é uma questão que diz respeito apenas às crianças, mas a todos seus membros, ao longo de suas vidas. As condições para que uma criança cresça ou um jovem se desenvolva na família serão tanto melhores quanto mais seu pai, sua mãe ou quem deles cuide possam pensar-se, eles(as) mesmos(as), como alguém em permanente crescimento, em cada novo lugar que ocupe na família.

A família não se define, assim, pelos indivíduos unidos por laços biológicos, mas pelos significantes que criam os elos de sentido nas relações, sem os quais essas relações se esfacelam, precisamente pela perda, ou inexistência, de sentido. Se os laços biológicos unem as famílias é porque são, em si, significantes. Ninguém se atreveria a contestar a força simbólica dos "laços de sangue" em nossa cultura ibérica/ocidental, com os "nomes de família", as semelhanças físicas, os traços de personalidade (ou de caráter) "que se puxa" de algum parente próximo ou distante...

A família delimita-se, assim, por uma história que vai sendo contada aos indivíduos desde que nascem, ao longo do tempo, através de palavras, gestos, atitudes ou silêncios. Estes, por sua vez, são constantemente redefinidos pelas várias mensagens que chegam à família através do mundo ao seu redor. No entanto, cada um conta esta história do seu jeito. Ela é recontada de maneiras diferentes por cada um dos membros que compõem a família, dependendo do lugar a partir do qual ouvem e falam, construindo várias (e variadas) histórias.

Os discursos são distintos porque os lugares são diferenciados. A família, como o mundo social, não é uma soma de indivíduos. Embora comporte relações de tipo igualitário, como aquela entre o homem e a mulher, a família implica autoridade, pela sua função de socialização dos menores, definindo-se, assim, como um mundo de relações recíprocas, complementares e assimétricas. Em relação às crianças, desde que nascem, é determinante o papel estruturante que tem a família em suas relações, mas não apenas na infância. A família mantém-se como referencial mesmo nas transformações da vida adulta. A diferença está em que, sobretudo, no mundo dos jovens diversificam-se os eixos de referência estruturantes, em permanente relação com o mundo familiar. Dada a socialização que se estende, cada vez mais, para fora do âmbito familiar, com a educação infantil em creches e pré-escolas, as marcas de referências externas tendem crescentemente a começar mais cedo.

Crescer significa poder "relativizar" as referências familiares, "desnaturalizando-as", o que permite o processo de singularização do sujeito. Este, entretanto, é um processo que dura a vida toda e que começa fundamentalmente quando se tem garantido o exercício das funções chamadas de paternas e maternas. Desempenhadas preferencialmente, mas não exclusiva nem necessariamente, no âmbito familiar, estas funções não se referem aos papéis de pai e mãe, aos quais são culturalmente associados. Referem-se às funções necessárias à estruturação psíquica da criança que implicam de um lado, o acolhimento, o apego, função materna, e de outro, os limites ao apego, a noção da existência do outro, para que os sujeitos sejam posteriormente capazes de se diferenciar nas relações de afeto. É a função paterna, imposição da lei, realidade externa e social, que separa a simbiose inicial do ser humano com a mãe.

Este processo atualiza-se permanentemente ao longo da vida, o que implica que, tratando-se de relações familiares, haja sempre o que fazer... Um mau começo dificulta a vida adulta, mas não impede o crescimento, se novas possibilidades se abrirem no caminho. Sobretudo no mundo atual, em que as funções paternas e maternas são cada vez mais uma responsabilidade social, de instituições públicas, fora do âmbito familiar.

As fronteiras do mundo familiar, demarcadas pela história que a família conta sobre si, criando sua identidade, é abalada pela ação individualizada de cada um de seus membros, que reagem singularmente às relações internas e que trazem à convivência cotidiana a experiência também singular com o mundo exterior.

Os diferentes discursos que se exprimem na família denotam a singularidade do mundo familiar na sociedade contemporânea: ele é ao mesmo tempo auto-referido e defensivo na sua construção do "nós" - nisto que constitui o mundo privado - e permanentemente influenciado pelo mundo exterior – público -, que lhe traz a inevitável dimensão do "outro" com a qual tem que lidar. Assim, a família constitui-se pela construção de identidades que a demarcam, em constante confronto com a alteridade, cuja presença se fará sentir insistentemente, forçando a abertura, mesmo quando persistirem as resistências.

Esta singularidade remete à clássica formulação do antropólogo Lévi-Strauss, que, ao argumentar em favor do fundamento social (e não natural) da família, afirma que as palavras das Escrituras "Deixarás pai e mãe" constituem o fundamento da qualquer sociedade humana. Se a família - instituição humana, portanto cultural - não incorpora o outro em suas relações, fechando-se em si mesma, nega o que constitui seu próprio fundamento: o rompimento do isolamento das relações naturais de consangüinidade para a expansão através dos laços sociais de aliança com o diferente, através do casamento. É assim que Lévi Strauss interpreta o tabu do incesto, como "a" intervenção, que institui a condição humana. Não o define como uma regra negativa, uma proibição simplesmente, mas como uma regra positiva, a de abertura para o outro, o que constitui a condição de possibilidade da humanidade desenvolver-se culturalmente.

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Porquê jovens e família

Índice:
- Apresentação
- O que se quer dizer com "família"
- Porquê jovens e família
- De que família se fala
- Como se fala da família
- Como falar de outro jeito?

Fonte: Instituto de Terapia de Família e Casal de Campinas.
Visite o website: www.familia.med.br.

 
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