|
|
REATOR POR FUSÃO NUCLEAR Abingdon é uma minúscula cidade de 33000 habitantes, situada no sul da Inglaterra. Circundada pelo Rio Tâmisa a cerca de 80 quilômetros de Londres, é conhecida principalmente por seus edifícios seculares, entre os quais uma abadia beneditina com mais de 1300 anos e a igreja de São Nicolau, que começou a ser construída em 1180. Há cerca de dez anos, porém, Abingdon começou a se tornar famosa por uma construção bem diferente: o tokamak do laboratório de pesquisas JET (Joint European Torus), reator que é um dos maiores e mais impressionantes aparelhos científicos já montados pelo homem. Parecido por fora com uma caixa, o tokamak (russo para câmara magnética toroidal), é feito em aço e concreto, possui 12 metros de altura e pesa 30.000 toneladas. Possui forma de um anel oco. Salvo raras exceções, nem o núcleo das estrelas produz tanto calor quanto o JET, conhecido o reator. A temperatura dele alcança mais do que 300 milhões de graus, vinte vezes a temperatura encontrada no centro do Sol. Sua missão: preparar o desenvolvimento tecnológico dos reatores de fusão, uma forma de reação nuclear bem diferente da fissão, utilizada nas usinas atômicas atuais. Em princípio, nenhum aparelho construído na Terra poderia reproduzir o mecanismo pelo qual as estrelas geram energia. Essa energia vem de dentro dos átomos e, para tira-la de lá, é preciso, primeiro, esmagar esses átomos. A potência energética só é liberada quando os núcleos atômicos colam uns aos outros, num processo chamado fusão nuclear. E isto, até agora, só é possível no coração de uma estrela, onde se concentra o peso monumental das suas camadas extremas. Para se ter uma idéia, o SOL é 1 milhão de vezes mais pesado que a Terra, e 1 bilhão de vezes maior em volume. Por uma simples questão de espaço, portanto, não é possível meramente copiar aqui na Terra o mecanismo estelar. Mas há uma saída: substituir a força do peso por algum outro tipo de força. No início da década de 50, os americanos resolveram o problema usando o poder de uma bomba atômica. A bomba A não utiliza a fusão, mas a fissão nuclear, que é o oposto: em vez de unir núcleos Ieves, como o hidrogênio, ela quebra núcleos pesados, como o urânio ou o plutônio. A fissão não exige grande investimento em termos de força, já que o próprio urânio, por ser radioativo, está o tempo todo emitindo partículas subatômicas, os nêutrons. Eles mesmos quebram núcleos dos átomos vizinhos, numa reação em cadeia que leva à explosão. A idéia dos americanos, então, foi colocar dentro da bomba A uma certa quantidade de hidrogênio, totalmente envolto pelo urânio. Assim, quando o urânio explodia, os núcleos de hidrogênio eram esmagados e se fundiam. Imediatamente, vinha outra detonação, muito mais poderosa do que a primeira. Foi desse modo que os americanos, e depois os russos, criaram a bomba de hidrogênio. Ímãs dão a força. Desde o início, porém, estava claro que esse sistema não servia para se fazer um reator, onde a produção de energia não pode ser explosiva. Ao contrário, ela precisa ser cuidadosamente controlada. Com isso em mente, os russos conceberam o tokamak, uma máquina capaz de combinar a força de um conjunto de ímãs em torno de uma massa de núcleos de hidrogênio, para espreme-los até fundi-los. Embora os tokamaks tenham sido concebidos ainda na década de 50, a fusão ficou muito tempo parada. Em 1945, foi criado o primeiro reator experimental de fissão, e vinte anos depois começaram a surgir as usinas comerciais. Hoje, todas as usinas funcionam à base da fissão. Em contrapartida, só em 1991 foram produzidas as primeiras gotas de energia de fusão. Esse marco histórico foi obtido pelo maior e mais importante tokamak em operação, o do então mencionado laboratório de pesquisas JET, em Abingdon, Inglaterra. Era o fim do monopólio das estrelas sobre a energia de fusão controlada. A máquina do JET garantiu uma potência de 1,7 megawatt durante pelo menos 2 segundos, o que pode parecer pouco. Mas, para uma experiência científica, é tempo de sobra: numa bomba de hidrogênio, todas as reações necessárias à explosão ocorrem em milionésimos de segundo. Além disso, o objetivo da experiência era justamente demonstrar que a fusão controlada de deutério era possível. Atualmente, há dezenas de tokamaks estudando esse processo no mundo inteiro e, em dezembro de 1994, o da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, confirmou o feito do JET, aumentando a potência para 6 megawatts. Mas o tokamak inglês é o mais importante porque, com sua ajuda, os cientistas do JET realizaram o mais completo estudo da fusão nuclear até agora. Em milhares de experiências minuciosas, eles apontaram as virtudes e os defeitos dos tokamaks como geradores de energia. Esse diagnóstico será de grande valor na etapa que começa agora, a do desenvolvimento completo da tecnologia. |
Clique em alguma foto para ampliar |
| (Fonte: desconhecida) | |
|